terça-feira, 17 de novembro de 2009

Qual seria o tempo necessario da terapia?

Uma das questões mais polêmicas abordada – principalmente pelos pais - no último workshop realizado por mim no Brasil foi: “Qual o tempo mínimo de cada sessão da terapia floortime?” Penso que o mínimo para o desenvolvimento de um trabalho de qualidade deveria ser de uma hora. Não desconsidero a importância do tempo da sessão, porém, é necessário que ele não seja utilizado como camisa de força para definir a duração e a condução do processo. É fundamental que a definição do tempo desse encontro leve em consideração o estado emocional e regulatório da criança. O fundamental é que haja um clima relaxado (característico do floortime). Sem essa atmosfera, uma criança portadora de autismo, por exemplo, suportaria uma hora. Assim sendo, o tempo deve ser resultado do fluxo de interação que ocorre entre o terapeuta e o paciente.

O tempo determinado pelo criador da Terapia Flooortime (terapia do chão), Dr. Greesnpan, é de 1h30. Ele acredita que é necessário um tempo para envolvimento, acomodação e regulação do paciente, e um tempo maior para que o terapeuta possa compreender os sinais pelo mesmo.

A diferença relativa ao tempo de sessão entre a Terapia Floortime e as outras intervenções dá-se no campo da integração sensorial. Se o objetivo de um profissional de fonoaudiologia for a construção de um vocabulário, por exemplo, esse objetivo apenas será atingido se o paciente estiver regulado. Para isso, o profissional deve ter um tempo de leitura do estado emocional e regulatório desse paciente antes de começar a trabalhar para atingir as metas da linguagem.

Como na Terapia Floortime a participação familiar é fundamental, ela deve ter seu espaço de acomodação garantido. Como o número de pessoas no mesmo ambiente pode ser grande, faz-se necessário um clima de relaxamento e de interação entre todos. O que só acontecerá se a questão do tempo estiver bem resolvida e não sirva como um elemento tensionador.

Idéias de como brincar: é importante que a criança lidere a brincadeira.


Os pais devem facilitar as descobertas e expandi-las com os brinquedos. Eu sei que é difícil, principalmente quando nossas crianças têm ideias repetitivas e isoladas, mas a intenção é dar a essas crianças o poder da iniciação e do controle. É sempre bom lembrar que a temática não é tão importante, e sim o processo que ela irá desenvolver.

A relação entre a criança e o adulto deve ser pautada pela reciprocidade e envolver vários círculos de comunicação e conexão de idéias, que são essenciais para ajudar no desenvolvimento emocional e, futuramente, construir o cognitivo.

O importante não é construir o conhecimento e sim estabilizar uma relação interpessoal entre os pais e a criança. Para isso, é necessário que exista um clima de relaxamento e poesia no ambiente. Os brinquedos possibilitam a entrada nessa atmosfera, facilitando a aproximação com a criança.

Seguindo a liderança da criança, os pais estão validando a capacidade natural e individual dela, pois quando a criança lidera, ela está no poder validando o que melhor sabe fazer, e isso aumentará sua capacidade de lidar com suas necessidades.

Como terapeuta, procuro respeitar todos os movimentos estabelecidos pela criança e, a partir daí, criar um plano para conhecer as necessidades dela, fazê-la não apenas reconhecer essas necessidades, mas compreendê-las como metas a serem atingidas. Se a meta de um paciente é aumentar a sua capacidade de relacionar-se com as pessoas através dos olhos, procuro criar um ambiente no qual os brinquedos estejam localizados em um ângulo em que ele necessite relacionar-se com os mesmos para tê-los, entretanto, essa atuação deverá ser realizada de maneira harmônica e relaxada. Um exemplo de como essa prática pode ser executada em uma brincadeira com uma criança pode aqui ser demonstrada: eleva-se um trem junto ao olho e pergunta-se a criança, “Quer ir passear?". Como a criança autista se relaciona muito mais com o personagem do que com o adulto, não deverá haver imposição de um tempo mínimo para que a relação com o interlocutor seja estabelecida, ou seja, a relação interpessoal deve ser viabilizada sem cobrança de tempo preestabelecido.

É muito importante seguir a liderança da criança e não se preocupar com a repetição ou com questões acadêmicas, esses conhecimentos vão surgir à medida que a criança aprenda a conviver com suas necessidades e se sinta confortável com seu espaço sensorial.

Por Patrícia Piacentini

Thomas Trem !

Eu e outra terapeuta regemos um grupo maravilhoso aos Sábados. Nossa ideia é criar um ambiente de ajuda mútua entre os pais, como, por exemplo, a de troca de informações entre eles a respeito de um universo que fazem parte: o autismo. Muitos dos pais com os quais trabalhamos são mexicanos que migraram para os Estados Unidos sonhando com uma vida mais digna. O sonho seria fazer algum dinheiro e retornar para casa. Mas o desejo ganha outra direção quando se dão conta que um dos filhos tem autismo. Essa realidade demora a ser decodificada pelos, primeiro, pela dificuldade de lidar com essa nova realidade, depois, por se darem conta de que há uma gama de diferentes comportamentos e necessidades por parte dos portadores do autismo. Tomados pelo primeiro impacto e contato com as novas circunstâncias esses pais se dão conta que o sonho da volta terá de ser revisto e melhor avaliado. Como atender as necessidades de um filho autista no México? Eis a questão mais frenquentemente mencionada nas consultas.

A ideia de criação do grupo veio para a socialização das inquietações que acometem esses pais e tentar sossegá-los. O que, de alguma maneira - e com sucesso – está ocorrendo entre a comunidade latina aqui em Santa Barbara, Califórnia. É muito gratificante ver como os pais crescem em conjunto, dividindo suas duvidas, angústias, êxitos e procurando compreender o autismo para, a partir desse conhecimento, se relacionar melhor com seus filhos.


Em nossos encontros, aos sábados, usamos a seguinte metodologia: escolhemos um tema que está diretamente relacionado aos interesses das crianças – e com o qual elas se sentem completamente confortáveis para interagir com os outros participantes. É importante frisar que essa interação acontece num ambiente bastante acolhedor.


Relatarei agora a experiência de um grupo que já se percebe enquanto corpo e mente. São quatro crianças com no máximo cinco anos e que possuem acomodações semelhantes. Elas estão dentro do processo terapêutico desde os três anos de idade.


Nessa sessão, realizada com o propósito de celebrar o aniversário de Thomas Trem, colocamos um anúncio na porta avisando da festa. Quando as crianças chegaram, encontraram um cartaz no corredor, com uma frase escrita em letras grandes, comentando a respeito do aniversario. A sala foi decorada de modo a propiciar o trabalho em conjunto com o objetivo de facilitar a montagem dos trilhos. No desenrolar da sessão, foi muito interessante observar os pais construindo em conjunto com os filhos todo o cenário. Vale ressaltar que muitas dessas crianças sofrem de ansiedade e que o processo de encaixe dos trilhos acomoda a emoção. Lembro, também, que qualquer situação que remeta a emoção é tudo que uma criança autista tenta evitar. Toda a sessão foi exitosa. Não houve qualquer problema de transição, cada participante se acomodou num personagem sem qualquer resistencia. Para nós terapeutas as metas foram alcançadas: interação, socialização, integração sensorial e trabalho em família. O objetivo central dessa sessão foi mostrar aos pais que se faz necessário um plano de ação para obter as metas e que esse plano pode vir acompanhado de muita alegria e satisfação.
Por: Patrícia Piacentini

Integração Sensorial



Todo ser humano tem uma maneira singular de processar e responder a diferentes estímulos. Juntos, nossos sentidos trabalham para nos fornecer informações sobre como estamos situados em um determinado ambiente. Sabemos que a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato são os cinco sentidos mais familiares ao nosso corpo, porém, existem dois sentidos internos adicionais que também nos ajudam processar as informações que vêm a nosso encontro.

Vestibular - é o sentido que passa a informação para os nossos ouvidos e que está relacionado ao movimento e ao equilíbrio. E a Propriocepção - que é a informação que recebemos dos nossos músculos e articulações, como, por exemplo, a posição que o nosso corpo está ocupando em certo espaço. Uma vez que o cérebro registra a informação sensorial do nosso corpo e processa essa informação, ele a interpreta e a organiza de maneira a executar os devidos comandos que irão responder as informações recebidas. Para muitos (pesquisadores), a integração dos sentidos ocorre sem que a percebamos. Para outros, a integração sensorial acontece de maneira diferenciada, o que pode ser a origem de vários problemas de funcionamento, chamada de "Sensory Processing Disorder" (em português seria “confusão/perturbação ou doença do processamento sensorial).

Sensory Processing disorder (SPD) - descoberta pela primeira vez, nos anos 50, pelo Dr. Jean Ayres, terapeuta ocupacional - atinge o sistema nervoso, que provoca dificuldades de compreensão, organização e integração. Talvez essa perturbação ocorra individualmente ou em conjunto com outras, como a dificuldade de atenção, autismo, paralisia cerebral, síndrome de Down, entre outras.

Essa perturbação sensorial varia de pessoa para pessoa e, associada ao stress e desconforto corporal, pode afetar a habilidade da criança e provocar um déficit de atenção na mesma. O que irá afetar profundamente a comunicação, a sociabilidade, o aprendizado, o comportamento e o senso de regularidade da criança.

Os três tipos mais importantes de processamento sensorial: alta, média e baixa sensibilidade. Refiro-me aos sentidos individuais equilibrando suas reações para que sejam reguladas em quaisquer situações. Por exemplo, crianças que passam por experiências de alta sensibilidade, tendem a sentir sensações muito intensas. Como conseqüência, elas reagem sempre como se a maioria das situações fossem perigosas e, às vezes, dolorosas. Nesse sentido, na maioria das vezes, tendem a fugir de situações semelhantes. Como conseqüência, talvez se esquivem quando alguém tentar tocá-las, chegando mesmo a não suportar o contato com as etiquetas das roupas e tornam-se muito agitadas se suas mãos são expostas a texturas de determinados produtos como areia, barro ou lama, por exemplo. Tendo como provável reação gritos durante a lavagem dos cabelos e apresentam verdadeiro ódio de penteá-los. São bem seletivas com alimentação, super sensíveis a cheiros e frequentemente tapam seus ouvidos para não escutarem o barulho de aparelhos como o liquidificador e o aspirador de pó. Fixam a atenção em sons repetitivos como o tic-tac do relógio e se sentem demasiadamente estimuladas em ambientes repletos de objetos. Cobrem os olhos quando são expostas a claridade, rejeitam certos movimentos e brinquedos como o balanço ou o escorrego. As crianças que possuem experiências de baixa sensibilidade têm dificuldades de registrar as informações sensoriais e necessitam de vários estímulos para que possam respondê-las. Na maioria dos casos, elas têm tolerância maior a dor; tendem a andar sem sapatos; constantemente tocam objetos e pessoas; quase sempre estão batendo ou tropeçando em algo; mastigam objetos como lápis; sentem dificuldade em seguir certas direções; falam muito alto; cheiram objetos; perseguem movimentos rápidos e rotativos sem ficarem tontas; adoram balanços, subir em árvores, ou seja, diversões que oferecem algum risco e que se movem constantemente.
Já crianças que experienciam a média sensibilidade, talvez possuam alta sensibilidade para certos tipos de estímulos sensoriais e baixa sensibilidade a outros.

O importante é dar a devida importância à questão sensorial e que esta possa ser identificada antes de qualquer intervenção psicológica. Se for identificado qualquer transtorno no processamento sensorial de alguma criança, o procedimento mais adequado deverá ser conduzi-la a uma terapeuta de integração sensorial, que poderá descrever uma dieta e uma sequência de exercícios que estimulará o sistema nervoso e ajudar o cérebro a processar as informações sensoriais necessárias para o seu desenvolvimento.


Por Patrícia Piacentini

Floortime



Por que eu uso o modelo DIR?

Um grande aspecto do modelo D.I.R. é a compreensão. O modelo DIR/Floortime é baseado em um novo modelo de desenvolvimento da mente que tem ajudado crianças portadoras de necessidades especiais e seus familiares a construir uma estrutura social, emocional e intelectual mais saudável, capacitando-os a melhorar a relação entre eles, tornando-os capazes a não focalizarem em comportamentos isolados. Esse desenvolvimento envolve muitos elementos e um grande time de profissionais.
A sigla DIR significa Desenvolvimento Diferencial Individual e Relacional. Esse modelo está embasado em um tipo de intervenção interdisciplinar que focaliza no estado emocional da criança e considera o seu sentimento, a relação com os pais, os níveis de desenvolvimento e as diferenças individuais, responsáveis pelas diferentes respostas aos estímulos sensoriais.
Essa intervenção foi criada pelos Drs. Stanley Greenspan e Serena Wielder com a intenção de envolver cada criança portadora de necessidades especiais, compreendendo os diferentes níveis de desenvolvimento e valorizando as melhores capacidades. A intervenção proclama seguir a liderança da criança e respeitar as diferenças sensoriais, cognitivas e motoras.

A terapia DIR / Floortime acredita que:

· Interrelacão e afetividade são condições necessárias para garantir a aprendizagem;

· Toda criança é única e deve ser tratada individualmente;

· Toda criança tem possibilidade de avanços;

· A família é a base do tratamento.

A ideia central da terapia Floortime é que os pais devem compreender como a criança está se desenvolvendo emocionalmente e cognitivamente, levando em considerações uma questão fundamental: como a criança inicia a comunicação com pessoas que estão ao seu redor?
De acordo com Academia Internacional de Ciências não existe um único estudo que valide qualquer intervenção especifica, mas há evidências de intervenções que funcionam, como o DIR/Floortime e outras intervenções baseadas nesse método.
Por: Patrícia Piacentini

Comentários e Sugestões

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