sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Summer Camp 2018 por Vivian Fornazier


Vivian Fornazier – Summer Camp 2018
E o Summer Camp 2018 chegou ao final. Que experiência foi essa, minha gente?!
Uma colônia terapêutica de férias de três semanas para crianças dentro do espectro autista. Foram 21 dias de muita troca. Conheci profissionais do país inteiro, dividimos todos os perrengues de estar fora de casa: dormindo, acordando, comendo (muito coentro), estudando e trabalhando juntos em tempo integral. Foi uma experiência muito difícil, mas proporcionalmente rica. Não sei se tenho como mensurar tudo que aprendi com essa galera que topou comigo o desafio desses últimos dias. Acho que muitas pessoas sabem que há algum tempo venho trabalhando e estudando os autismos. Ao longo desse tempo eu fiz diversos cursos, fui em muitas palestras, li artigos e pesquisei bastante sobre o assunto, em diferentes âmbitos. Tive e tenho muitas dúvidas, em alguns momentos não soube o que fazer e não tive com quem trocar experiências. Questionei e sofri muito vendo crianças pequenas completamente dopadas de medicação e práticas que considerei desrespeitosas, invasivas e agressivas, sendo consideradas tratamento.
O ano passado conheci o modelo DIR/Floortime. Foi um alívio ver que existiam outras maneiras de pensar o autismo que se encaixavam mais com a minha maneira de ver o mundo. Dessa forma vim parar em Recife para absorver ao máximo sobre a prática, com a responsável por trazer o modelo ao Brasil, Patrícia Piacentini. Foram três semanas muito intensas no que diz respeito ao conhecimento prático e teórico, sem falar de todo o movimento emocional. Essa experiência foi surreal. Vi o autismo sob uma perspectiva completamente diferente de qualquer outra que já havia tido contato. Vi uma visão médica que apresenta maneiras não agressivas de tratamentos e que pensa no sujeito como um todo. Ouvi sobre pesquisas e conteúdos que não sabia que existiam. Vi profissionais fazendo um trabalho muito respeitoso, cuidadoso e relevando cada sujeito em sua singularidade. Acompanhei o processo de mudança de varias crianças e compartilhei com as famílias a alegria de poder vê-los, em três semanas, ampliando suas capacidades de engajar e brincar. Ainda estou processando tudo isso, e queria compartilhar com todo mundo o quanto é importante “pensar fora da caixa”. Questionem, busquem, explorem. Não precisa ser através do DIR, existem muitas práticas que podem ser interessantes para cada caso. Mas não tomem algo como absoluto se isso não está sendo respeitoso.
Me coloco totalmente à disposição para compartilhar o pouco que sei com quem quiser conhecer mais sobre o modelo. E se alguém tiver algo pra trocar comigo, mande mensagem também!
Agora volto pra casa com o coração cheio de alegria e com muito carinho por tudo que vivi aqui.
Meu muito obrigada aos profissionais que conheci, à equipe do CDI e principalmente as famílias que compartilharam sua história comigo, com muito carinho e confiança. Não tenho palavras para descrever as transformações que essa experiência me proporcionou.
Até mais Recife, “tchau tchau CDI, foi muito bom estar aqui”  

Vivian Fornazier é uma dos profissionais que participaram do Summer Camp 2018 no CDI (Centro de Desenvolvimento Infantil) que é realizado todo mês de janeiro em Recife e organizado por Patricia Piacentini.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Desordem do Processamento Sensorial: O que não podemos esquecer!

Desordem do Processamento Sensorial: O que não podemos esquecer!
Todo ser humano tem uma maneira singular de processar e responder a diferentes estímulos. Juntos, nossos sentidos trabalham para nos fornecer informações sobre como estamos situados em um determinado ambiente. Sabemos que a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato são os cinco sentidos mais familiares ao nosso corpo, porém, existem dois sentidos internos adicionais que também nos ajudam processar as informações que vêm a nosso encontro. 
Vestibular é o sentido que passa a informação para os nossos ouvidos e que está relacionado ao movimento e ao equilíbrio. Proprioceptivo é a informação que recebemos dos nossos músculos e articulações, como, por exemplo, a posição que o nosso corpo está ocupando em certo espaço. Uma vez que o cérebro registra a informação sensorial do nosso corpo e processa essa informação, ele a interpreta e a organiza de maneira a executar os devidos comandos que irão responder as informações recebidas. Para muitos pesquisadores, a integração dos sentidos ocorre de maneira imperceptível. Para outros, a integração sensorial acontece de maneira diferenciada, o que pode ser a origem de vários problemas de funcionamento, chamada de Desordem do Processamento Sensorial (DPS).
Desordem do Processamento Sensorial (DPS) – descoberta pela primeira vez, nos anos 50, pelo Dra. Jean Ayres – atinge o sistema nervoso, que provoca dificuldades de compreensão, organização e integração. Talvez essa perturbação ocorra individualmente ou em conjunto com outras, como a dificuldade de atenção, autismo, paralisia cerebral, síndrome de Down, entre outras.
Essa perturbação sensorial varia de pessoa para pessoa e, associada ao stress e desconforto corporal, pode afetar a habilidade da criança e provocar um déficit de atenção na mesma. O que irá afetar profundamente a comunicação, a sociabilidade, o aprendizado, o comportamento e o senso de regularidade da criança. 
Os três tipos mais importantes de processamento sensorial: alta, média e baixa sensibilidade. Refiro-me aos sentidos individuais equilibrando suas reações para que sejam reguladas em quaisquer situações. Por exemplo, crianças que passam por experiências de alta sensibilidade, tendem a sentir sensações muito intensas. Como consequência, elas reagem sempre como se a maioria das situações fossem perigosas e, às vezes, dolorosas. Nesse sentido, na maioria das vezes, tendem a fugir de situações semelhantes. Como consequência, talvez se esquivem quando alguém tentar tocá-las, chegando mesmo a não suportar o contato com as etiquetas das roupas e tornam-se muito agitadas se suas mãos são expostas a texturas de determinados produtos como areia, barro ou lama, por exemplo. Tendo como provável reação gritos durante a lavagem dos cabelos e apresentam verdadeiro ódio de penteá-los. São bem seletivas com alimentação, super sensíveis a cheiros e frequentemente tapam seus ouvidos para não escutarem o barulho de aparelhos como o liquidificador e o aspirador de pó. Fixam a atenção em sons repetitivos como o tic-tac do relógio e se sentem demasiadamente estimuladas em ambientes repletos de objetos. Cobrem os olhos quando são expostas a claridade, rejeitam certos movimentos e brinquedos como o balanço ou o escorrego. As crianças que possuem experiências de baixa sensibilidade têm dificuldades de registrar as informações sensoriais e necessitam de vários estímulos para que possam respondê-las. Na maioria dos casos, elas têm tolerância maior a dor; tendem a andar sem sapatos; constantemente tocam objetos e pessoas; quase sempre estão batendo ou tropeçando em algo; mastigam objetos como lápis; sentem dificuldade em seguir certas direções; falam muito alto; cheiram objetos; perseguem movimentos rápidos e rotativos sem ficarem tontas; adoram balanços, subir em árvores, ou seja, diversões que oferecem algum risco e que se movem constantemente. Já crianças que experienciam a média sensibilidade, talvez possuam alta sensibilidade para certos tipos de estímulos sensoriais e baixa sensibilidade a outros. 
O fundamental é dar a devida importância à questão sensorial e que esta possa ser identificada antes de qualquer intervenção psicológica. Se for identificado qualquer transtorno no processamento sensorial de alguma criança, o procedimento mais adequado deverá ser conduzi-la a uma terapeuta de integração sensorial, que poderá descrever uma dieta e uma sequência de exercícios que estimulará o sistema nervoso e ajudará o cérebro a processar as informações sensoriais necessárias para o seu desenvolvimento.
Patrícia Piacentini
Terapeuta DIR/Floortime

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Quem está brincando, você ou a criança?


Quem está brincando, você ou a criança?
Os interesses da criança são a chave e é assim que tudo se inicia no Floortime, componente do modelo DIR. Nele nos tornamos detetives, investigando qual a porta que a criança abre (espontaneamente) para que nós terapeutas possamos atuar e, junto com a família, expandir os níveis de desenvolvimento. Acreditamos que isto proporcionará à criança uma autonomia emocional, necessária para a resolução de problemas. Às vezes essas portas se abrem nas brincadeiras motoras, outras vezes nas brincadeiras sensoriais, outras nos scrips… o importante é estarmos sempre ali, mediando esse desenvolvimento e validando a iniciação.
Se faz necessário compreender que no desenvolvimento infantil etapas como: relacionamento, engajamento, comunicação, alteração de comportamentos através da compreensão, crescimento emocional, desenvolvimento intelectual e diferenças individuais, são peças fundamentais que qualquer terapeuta precisa validar para mediar a relação da criança com o mundo.
Nós DIR, validamos a criança, suas diferenças individuais, seu estado emocional e suas relações. Assim como Vigotski, que destaca que o homem se constitui como ser humano a partir das interações que estabelece com os outros, acreditamos que o crescimento intelectual e emocional acontece dentro do contexto dos relacionamentos. Por este fator, validamos os grupos terapêuticos onde a criança nos mostra suas dificuldades interacionais, de convivência, divisão de espaço/objetos, iniciação, troca, etc., momento em que podemos perceber as dificuldades nas relações e de participação no contexto de grupo. Além disto, as terapias em grupo nos possibilitam trabalhar questões específicas que ofereçam suporte para criança na escola no processo de inclusão, o que nos permite uma compreensão da criança em outros contextos que não seja terapia individual.
Sabemos que o mundo social exige na infância, primeiramente, o domínio da política do playground (práxis), o domínio da coordenação motora ampla, das habilidades de subir, descer, pular, correr, etc., realizando ações que permitam a mesma estar inclusa nos contextos do parquinho com as outras crianças, o que influencia diretamente no modo como a criança se percebe, em sua confiança em si mesma e em seus aspectos emocionais. Além dos aspectos motores, nesse mundo se faz necessário saber onde o corpo está no ambiente, fator bastante desafiador no autismo.
Olhando nossas crianças por essa perspectiva, é inegável que seguir sua liderança e interesses é o caminho mais promissor para trabalhar suas dificuldades, para construção do vinculo afetivo, engajamento e ampliação dos círculos interacionais e de comunicação. Quando pensamos em seguir a liderança da criança, não significa abdicar dos limites necessários para qualquer ser humano, não falamos em vagar sem rumo seguindo de brinquedos em brinquedos, queremos expor o fato de se planejar o que deve ser trabalhado com a criança com objetivos em mente a partir de seus interesses.
Nós DIR, não trocamos e não intimidamos, queremos construir pontes afetivas com a criança de modo a validar sua auto estima respeitando seus interesses, que muitas vezes diferentes dos nossos, mas humanos com desejos e anseios. Quem acredita no desenvolvimento, nunca deve esquecer que muitas vezes o interesse da criança é a janela emocional que nos permite saber o que ela pode fazer ou simplesmente não pode fazer.
Amamos seguir a liderança da criança, ela nos conecta. Amamos porque queremos que todas as crianças sejam participantes ativas, queremos iniciação. Não queremos o jogo fornecendo todas as ideias, em que apenas um dos lados crie, proponha, invente. Queremos brincar juntos. Queremos participar da brincadeira e mediar a interação dessa criança com o mundo, contribuindo para que o que é difícil para ela se torne mais fácil. Queremos ajudá-las a superar as lacunas que podem ocorrer sempre que a criança tenta expressar suas intenções. Em alguns momentos discutimos sobre o estar brincando, sobre como quem participava, falava, fazia: éramos nós. É importante se fazer essa pergunta no autismo, quem esta brincando você ou a criança?

SUMMER CAMP 2018

quarta-feira, 17 de maio de 2017

REPENSANDO O AUTISMO – OUT OF THE BOX


Convidamos a todos para mais um evento maravilhoso: Repensando o Austismo – Out of the box, com presença de Dra. Camila Milagres, Patrícia Piacentini, Dr. Vinícius Barbosa e Maria Rosa Etcheverry que acontecerá em Recife e em Belo Horizonte! 
Para mais informações sobre participação: 
BH – dracamilamilagres@gmail.com
Recife – cdifloortime@gmail.com / 3037-5768

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Num passado, não muito distante, dois modelos guiaram as intervenções terapêuticas: o antigo modelo comportamental, que fez o melhor diante das circunstâncias do que se sabia de desenvolvimento infantil, e o voltado para as áreas das habilidades cognitivas.
No primeiro modelo, os comportamentalistas guiaram o tratamento focalizando em comportamentos superficiais e tentando mudá-los, que era bem melhor do que ignorá-los, ou, até mesmo, reprimi-los com castigos. O segundo modelo recebeu lições das crianças mais velhas, por exemplo: se uma criança mais velha, supostamente, estava aprendendo como identificar formas, faríamos com que uma criança de três anos, que não tinha linguagem, fizesse o mesmo trabalhando em uma sequência repetitiva, sempre e sempre. Mais uma vez, era melhor que nada, pelo menos estavam interagindo e encorajando a cognição da criança. Porém, continuavam trabalhando habilidades cognitivas isoladas.
Hoje em dia, nós entendemos como a mente e o cérebro funcionam, e aí podemos fazer muito mais por nossas crianças. Nós podemos ir em todas as áreas desses modelos e modificar a superfície do comportamento, ou trabalhar com as habilidades isoladas. Nós podemos, agora, sistematizar o modelo de desenvolvimento, que sintetiza e integra as melhores informações que temos de como a mente e o cérebro desenvolvem.
Eu acredito mais na interação e na troca emocional pois, sem essa relação, fundamental, a cognição e a linguagem não se desenvolvem, apropriadamente. Por exemplo: A criança não aprende a dizer “olá” baseada em regras, você só diz “olá” para pessoas que conhece. Quando a criança não se sente segura, ou, até mesmo, quando ela sente medo, raiva, vergonha, vai se esconder atrás das pernas da mãe ou do pai e não diz “olá”. Então, não é surpresa que crianças que se sentem lotadas, psicologicamente, evitem esse tipo de cumprimento, ou, até mesmo, tenham dificuldade em expressar alegria. Resumindo, até algo simples como um “olá” é vinculado ao nosso AFFECT.
Não podemos mais ensinar as nossas crianças nos modelos antigos, particularmente, crianças com necessidades especiais e que tenham problemas no processamento. Isso significa que não só vamos trabalhar relações com as crianças. Vamos, também, trabalhar no contexto familiar.
Os modelos de desenvolvimento validam as crianças aonde elas estão e compreendem que as habilidades são desafiadas por razões motoras, sensoriais e de processamento. Para nós do DIR, se faz necessário uma avaliação aonde traçamos um plano de ação, dentro da necessidade da criança, que envolva a família na interação de trazer essa criança para seu ambiente emocional, social e cognitivo.
Muitas das crianças que vejo, na minha prática, são vitrines de planos que elas não alcançam e que geram frustações diarias, lendo-as a déficits emocionais, que, muitas vezes, vão ser responsáveis por inúmeras estereotipias e isolamento, e, quando não, a “depressão”. Outro fator importante que devemos ressaltar, no tratamento do autismo, é a importância da explicação científica do que fazemos. Para os pais, é de extrema importância esse feedback, para que eles possam dar continuidade ao tratamento em seu ambiente familiar, estimulando de forma positiva às ações e conquistas.
Muitas das crianças não reagem apropriadamente ao tratamento sem os pais, que são a base emocional delas. Outras crianças vivem em seu mundo isolado, em que os pais não chegaram ainda. Então, acredito que cabe a nós, terapeutas, abrir essa possibilidade de integração e participação dos pais para que esse mundo seja de mais troca. No meu ponto de vista, essas crianças precisam dessa validação emocional e temos indícios científicos que são bem mais importantes que qualquer intervenção cognitiva. Sem a relação, fica impossível criar uma intervenção que funcione em todos os níveis de desenvolvimento. Essas crianças precisam de apoio para desenvolver esse sinal emocional e ligar com os sinais sociais, que são imprescindíveis para o desenvolvimento da terapia.
No meu trabalho terapêutico, procuro ligar essa prática sem, logicamente, esquecer que essas crianças também necessitam de estímulos cognitivos e sensoriais para um completo tratamento. E esse tratamento pode ser feito, e deve, com o apoio dos pais na prática diária.
Por: Patricia Piacentini