quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Num passado, não muito distante, dois modelos guiaram as intervenções terapêuticas: o antigo modelo comportamental, que fez o melhor diante das circunstâncias do que se sabia de desenvolvimento infantil, e o voltado para as áreas das habilidades cognitivas.
No primeiro modelo, os comportamentalistas guiaram o tratamento focalizando em comportamentos superficiais e tentando mudá-los, que era bem melhor do que ignorá-los, ou, até mesmo, reprimi-los com castigos. O segundo modelo recebeu lições das crianças mais velhas, por exemplo: se uma criança mais velha, supostamente, estava aprendendo como identificar formas, faríamos com que uma criança de três anos, que não tinha linguagem, fizesse o mesmo trabalhando em uma sequência repetitiva, sempre e sempre. Mais uma vez, era melhor que nada, pelo menos estavam interagindo e encorajando a cognição da criança. Porém, continuavam trabalhando habilidades cognitivas isoladas.
Hoje em dia, nós entendemos como a mente e o cérebro funcionam, e aí podemos fazer muito mais por nossas crianças. Nós podemos ir em todas as áreas desses modelos e modificar a superfície do comportamento, ou trabalhar com as habilidades isoladas. Nós podemos, agora, sistematizar o modelo de desenvolvimento, que sintetiza e integra as melhores informações que temos de como a mente e o cérebro desenvolvem.
Eu acredito mais na interação e na troca emocional pois, sem essa relação, fundamental, a cognição e a linguagem não se desenvolvem, apropriadamente. Por exemplo: A criança não aprende a dizer “olá” baseada em regras, você só diz “olá” para pessoas que conhece. Quando a criança não se sente segura, ou, até mesmo, quando ela sente medo, raiva, vergonha, vai se esconder atrás das pernas da mãe ou do pai e não diz “olá”. Então, não é surpresa que crianças que se sentem lotadas, psicologicamente, evitem esse tipo de cumprimento, ou, até mesmo, tenham dificuldade em expressar alegria. Resumindo, até algo simples como um “olá” é vinculado ao nosso AFFECT.
Não podemos mais ensinar as nossas crianças nos modelos antigos, particularmente, crianças com necessidades especiais e que tenham problemas no processamento. Isso significa que não só vamos trabalhar relações com as crianças. Vamos, também, trabalhar no contexto familiar.
Os modelos de desenvolvimento validam as crianças aonde elas estão e compreendem que as habilidades são desafiadas por razões motoras, sensoriais e de processamento. Para nós do DIR, se faz necessário uma avaliação aonde traçamos um plano de ação, dentro da necessidade da criança, que envolva a família na interação de trazer essa criança para seu ambiente emocional, social e cognitivo.
Muitas das crianças que vejo, na minha prática, são vitrines de planos que elas não alcançam e que geram frustações diarias, lendo-as a déficits emocionais, que, muitas vezes, vão ser responsáveis por inúmeras estereotipias e isolamento, e, quando não, a “depressão”. Outro fator importante que devemos ressaltar, no tratamento do autismo, é a importância da explicação científica do que fazemos. Para os pais, é de extrema importância esse feedback, para que eles possam dar continuidade ao tratamento em seu ambiente familiar, estimulando de forma positiva às ações e conquistas.
Muitas das crianças não reagem apropriadamente ao tratamento sem os pais, que são a base emocional delas. Outras crianças vivem em seu mundo isolado, em que os pais não chegaram ainda. Então, acredito que cabe a nós, terapeutas, abrir essa possibilidade de integração e participação dos pais para que esse mundo seja de mais troca. No meu ponto de vista, essas crianças precisam dessa validação emocional e temos indícios científicos que são bem mais importantes que qualquer intervenção cognitiva. Sem a relação, fica impossível criar uma intervenção que funcione em todos os níveis de desenvolvimento. Essas crianças precisam de apoio para desenvolver esse sinal emocional e ligar com os sinais sociais, que são imprescindíveis para o desenvolvimento da terapia.
No meu trabalho terapêutico, procuro ligar essa prática sem, logicamente, esquecer que essas crianças também necessitam de estímulos cognitivos e sensoriais para um completo tratamento. E esse tratamento pode ser feito, e deve, com o apoio dos pais na prática diária.
Por: Patricia Piacentini

Em Recife!

A suplementação na Síndrome de Down é, tendo em vista os avançados conhecimentos em epigenética e nutrigenômica, um pilar tão importante no tratamento quanto a estimulação precoce, treino cognitivo, inclusão em escola regular e pode ser um fator de impacto no déficit intelectual dessas pessoas.
A epigenética e o uso de suplementos visa melhorar os desequilíbrios gerados em vários caminhos bioquimicos pela cópia extra do cromossomo 21. Impactos no ciclo de metilação, transfulfatação e em rotas de destoxificação corporal acontecem pela triplicação de genes cruciais. 
Os conhecimentos atuais em nutrigenômica permitem usar compostos naturais como folatos, vitaminas, minerais e anti oxidantes para inibir a expressão gênica ou atuarem como controladores de danos que possam estar acontecendo.
O EGCG vem sendo um dos compostos "queridinhos" da suplementação dos pacientes com Síndrome de Down. Sua importância é tão grande que o Lancet (um dos melhores periódicos médicos mundiais) publicou recentemente pesquisa que ocorreu entre 2012 e 2014 e que associava o EGCG ao treino cognitivo em pacientes de 16 a 34 anos. O resultado impressiona, já que houve diferença estatisticamente significativa entre os pacientes que usaram o EGCG. Isso significa que mesmo tendo o mesmo treino cognitivo os pacientes suplementados com a epigalocatequina-3-galato tiveram melhores respostas em uma bateria de testes que mediam sua memória episódica, função executiva e escalas de funcionalidade. 
Mas em termos bioquímicos por que isso ocorre? Qual é lógica que levou a essas pesquisas? Pessoa com Síndrome de Down super expressam um gene chamado DYRK1A, cujo locus é justamente no cromossomo 21. Esse gene por estar triplicado causa um distúrbio bioquímico no balanço entre a proliferação e a maturação de células neuronais e o EGCG age justamente como um inibidor da enzima DYRK1A, levando a melhora da maturidade neuronal, da degeneração de neurofibrilas e como protetor de Alzhemeir nestas pessoas.
Da mesma forma que muitas inverdades, como a Terra ser o centro do sistema solar, ou ser impossível voar foram quebradas, também vem caindo em desuso o não tratamento de síndromes genéticas. Entender a inibição e super expressão genicas é o caminho, não apenas para a Síndrome de Down como para várias síndromes genéticas raras
Artigo disponível:
Safety and efficacy of cognitive training plus epigallocatechin-3-gallate in young adults with Down's syndrome (TESDAD): a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 2 trial - The lancet Neurology - Volume 15, No. 8, p801–810, July 2016
Por: Dra. Camila Milagres